sábado, 4 de julho de 2015

Ele só sabe amar em tranquilidade. Uma forma de sossego bem vinda ao cruzar a rua, por exemplo. Ele não sabe amar de forma exaltada e violenta. Uma expressão de reviravolta a tudo que o cerca. Ama quieto. Ama curioso e tranquilo. E esse amor se exprime numa paz de espírito ora repousada, ora em movimento, indo do peito a cabeça lentamente e todos os dias. E é isso que o torna bom nisso. Ele só sabe amar no meio das palavras, na conversa, no ouvir e ser ouvido. Mais que uma questão de educação, ele acredita - assim como o poeta - que é na escuta que o amor começa. Nos tempos de guerra, é necessário reparar no outro de uma forma mais profunda, mais minuciosa também e perceber onde é que o amor nasce no outro. Ele só sabe amar em tranquilidade. No ouvir e se fazer ser ouvido. Em comunhão. Afinal o poeta estava mesmo certo sobre o amor: "e é na não-escuta que ele termina"



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Desenhos guardados numa escrivaninha, casaco na cadeira, alguma foto ou outra em alguma rede social, talvez. Um punhado de lembranças e lambanças também. Uma saudade amiga e cheiro de bolo quentinho recém saído do forno. E foi assim que eu sorri hoje após o almoço, intervalo do trabalho, tarde de inverno, quase julho. Não gosto de tirar pessoas permanentemente da minha vida, sou aquariano. Confesso. Não me entenda mal. Triste isso, amigo. É, foi assim que eu sorri hoje.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Algumas lembranças não precisam ser, por definição, saudosistas. Não! Lembranças saudosas causam um aperto no peito e uma constrição no sistema límbico. É como uma voz ecoando lá no fundo e dizendo coisas sobre regresso, ao momento que, sem perceber ou prevenir, você se pega pensando no passado e em coisas que provavelmente deveriam ficar lá, em seus lugares adornados ou varridos pra debaixo do tapete. Saudade é ruim e pronto!

quarta-feira, 10 de junho de 2015

Esfinge

Acordei todo as avessas, esófago no lugar do coração. Tinha todas as palavras, mas me faltava a coragem de organizá-las e falar. E mesmo assim eu já tinha gozado dos desejos e das vontades alheias que permanecem ocultas. As paredes tinham um formato estranho, anos e anos de vontades reprimidas pelo acaso. Suas medidas eram assustadoramente singulares, curvas de um tom enebriante, seios e coxas, e acima do pescoço uma cabeça de leão pronta a devorar o ingenuo que se atrevesse a tocá-la. Uma esfinge me mirava. A minha idade pouco importava e avançava e regredia várias vezes pelos minutos que fiquei a observá-la. Desejei sucumbir ali. Anseio. Eu não recuo, não poderia. Absurdo, tão deliciosa quanto eu imaginava. Sonho ou pesadelo? Via com uma nitidez especial ela investindo contra mim afim de evitar as pontes que no começo eram curtas e fáceis de cruzar, mas ao longo do caminho arranhariam até os ossos. "Eu também quero você." "Então venha, estou aqui." "Eu quero você!"  Sexo e paredes escuras, cenário reconfortante. É normal querer morrer de vez em quando, no entanto, leões não permanecem por baixo, não adianta tentar enganar. Sonho perdido. Ela foi toda minha. E fica moderadamente fácil amar o que escorre pelos dedos. Eu disse que você era forte como eu. Uma esfinge sempre traz consigo algum enigma. Não era e isso me doeu muito, porque você deveria ser livre para devorar o verão. E junto comigo, Esfinge.

terça-feira, 9 de junho de 2015

Aquele cinza que cruzou o céu
e se estabeleceu em nós sorriu
trazendo de novo e de novo
tudo que nos foi roubado
Derramando em chuva
tudo que poderia ter sido e não foi

Quando penso nas coisas que poderiam ter sido
meu estômago revira em uma centena de pregos dançando nele
E as coisas que poderiam ter sido ditas
Bebo o silêncio e escrevo coisas sem sentido
E sinto o clima e a tristeza, sobretudo o vento de Junho

Solto minhas lembranças
aquelas do sono embriagado
procurando encontrar nesses dias frios
o menor sinal de que foi tudo as avessas
e que pelas tangentes um dia a gente volta a rir
nos fazendo os donos do nosso próprio cinza